Há caras cujo corpo parece ter sido pensado para um museu. Não um museu empoeirado com placas “não toque” — não, um museu onde você teria vontade de pôr as mãos no mármore para verificar se está mesmo tão quente quanto parece. Shanaree é esse tipo de cara. E quando é David Vance que o fotografa — o mestre absoluto do nu masculino clássico, o cara que passou quarenta anos transformando corpos de homens em divindades gregas do seu estúdio em Miami — o resultado é exatamente o que você imagina: suntuoso, carnal e completamente hipnótico.
Vamos começar pelo rosto, porque esse merece que paremos nele. Shanaree tem cara de modelo de alta costura: maxilar quadrado e poderoso, maçãs do rosto altas, lábios carnudos perfeitamente desenhados, olhos escuros amendoados com um olhar que hesita entre a doçura e o desafio. O crânio é raspado bem curto, quase na pele, o que acentua a estrutura impecável do seu rosto e o comprimento do pescoço. No close, as mãos nas têmporas, olhos semicerrados, ele parece um príncipe sonhando ou um guerreiro meditando antes da batalha. É lindo de tirar o fôlego.
E depois tem o corpo. Shanaree não é um bodybuilder nem um twink — ele está bem no meio, nessa categoria que poderíamos chamar de “atleta natural“. Peitorais largos e definidos sem serem inflados, ombros redondos e musculosos, braços longos e nervosos percorridos por veias, abdômen seco que se adivinha mais do que se destaca, e uma cintura fina que dá ao seu torso uma silhueta em V clássica. A pele é lisa, sem pelos, de um marrom profundo que capta a luz dourada do estúdio do Vance como se tivesse sido feita para isso. Nas fotos onde o corpo está oleado, cada músculo brilha, cada tendão desenha uma sombra, cada curva conta uma história. É carne, mas parece bronze.
David Vance é mestre nessa arte: pegar um homem nu e transformá-lo em algo que evoca o Renascimento italiano sem nunca ser frio ou distante. Aqui, Shanaree está sentado de frente para a câmera, um lençol branco amassado sobre os joelhos como um modelo de Caravaggio, braços cruzados, olhar cravado na lente. Depois ele se levanta, o tecido deslizando pelo corpo como um véu sendo retirado, a pele brilhante, o rosto virado para baixo num gesto de sensualidade quase tímida. E quando posa de jeans largo escuro e gorro cinza, descalço, mãos nos bolsos, é outra fantasia que toma forma: a do cara do bairro, do cara que mora perto de você que nem tem consciência de ser tão lindo, e que tiraria tudo por um olhar.
Porque é esse o verdadeiro assunto desta série: o strip-tease lento. Primeiro o jeans e o gorro, o estilo street. Depois o jeans aberto, a mão no baixo-ventre, o olhar que fica mais intenso. Depois o lençol. Depois nada — nu de costas, a mão na nuca, as omoplatas salientes, as costas musculosas em V que descem para uma bunda redonda, empinada, firme, perfeitamente desenhada, o tipo de bunda que faz todas as cabeças virarem num vestiário. É a imagem final, a que fica. Aquela onde você percebe que Shanaree não apenas te mostrou seu corpo — ele te deixou entrar nele, camada por camada, da rua ao estúdio, da roupa à pele nua.
Para os amadores de negões gostosos numa moldura de luz dourada, esta série é um presente. David Vance faz isso há décadas com livros como Men and Gods, Heavenly Bodies ou Timeless, e não perdeu nada do seu talento para sublimar o corpo masculino. Com Shanaree, ele encontrou um modelo que alia a graça de um dançarino, a potência de um atleta e o carisma de um cara que sabe exatamente o efeito que causa.
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Fotos: David Vance — davidvance.com














